21 de mai de 2009

O Navio Negreiro

’Stamos em pleno mar
Era um sonho dantesco... o tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa dos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia
E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanaz!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?... Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...

São mulheres desgraçadas
Como Agar o foi também,
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos
Filhos e algemas nos braços,
N'alma lágrimas e fel.
Como Agar sofrendo tanto
Que nem o leite do pranto
Têm que dar para Ismael...

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma das noites nos véus...
...Adeus! ó choça do monte!...
...Adeus! palmeiras da fonte!...
...Adeus! amores... adeus!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

E existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no seu pranto...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!...
...Mas é infâmia demais...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!

Odeio

veio um golfinho do meio do mar roxo
veio sorrindo pra mim
hoje o sol veio vermelho como um rosto
vênus, diamante, jasmim
veio enfim o e-mail de alguém

veio a maior cornucópia de mulheres
todas mucosas pra mim
o mar se abriu pelo meio dos prazeres
dunas de ouro e marfim
foi assim, é assim, mas assim é demais também

odeio você, odeio você, odeio você
odeio

veio um garoto do arraial do cabo
belo como um serafim
forte e feliz feito um deus, feito um diabo
veio dizendo que sim
só eu, velho, sou feio e ninguém

veio e não veio quem eu desejaria
se dependesse de mim
são paulo em cheio nas luzes da bahia
tudo de bom e ruim
era o fim, é o fim, mas o fim é demais também

odeio você, odeio você, odeio você
odeio

(Caetano Veloso)


Lamento Borincano

Sale loco de contento con su cargamento para la ciudad, ay, para la ciudad
Lleva en su pensamiento todo un mundo lleno de felicidad, si, de felicidad
Piensa en remediar la situación del hogar que és toda su ilusión, si

Y alegre el jibarito va pensando así, diciendo aí, cantando así por el camino: "Si vendo toda carga mi Dios querido, un traje a mi viejita voy a comprar"

Y alegre también su yegua va al presentir que su cantar es como un himno de alegria.
En esto le sorprende la luz del día
Y llegan al mercado de la ciudad

Pasa la mañana entera sin que nadie quiera su carga comprar, ay, su carga comprar
Todo, todo está desierto, el pueblo está muerto de necesidad, ay, de necesidad

Se oye este lamento por doquier
En mi desdichada Borinquen, sí
Y triste el jibarito va
pensando así, diciendo así, llorando así por el camino:
"que será de Borinquen, mi Dios querido? Que será de mis hijos y de mi hogar"

Borinquen, la tierra del Edén
Y que al cantar el gran Gautier llamó la perla de los mares
Ahora que te mueres com tus pesares
Déjame que te cante yo también

(Rafael Hernández)


"Quem nem alegre, nem triste, nem poeta"

El ángel

“Y el ángel que vi en pie sobre el mar y sobre la tierra, levantó su mano al cielo, y juró por el que vive por los siglos de los siglos, que creó el cielo y las cosas que están en él, y la tierra y las cosas que están en ella, y el mar y las cosas que están en él, que el tiempo no sería más.” (Apocalipsis, , 10, 5-6)

20 de mai de 2009

A cor amarela

uma menina preta de biquini amarelo
na frente da onda
que onda, que onda, que onda que dá
que bunda, que bunda

é o melhor que podia acontecer
à cor amarela
destacar-se entre o mar e o marrom
da pele tesa dela
o sol já tem muito o que fazer
na minha vida
querida
quem é você?

(Caetano Veloso)

Perdeu

pariu cuspiu expeliu
um deus um bicho um homem

brotou alguém algum, ninguém
o quê?, a quem

surgiu vagiu sumiu escapuliu
no som, no sonho, somem

são cem, são mil, são cem mil, milhão
do mal, do bem, lá vem um

olhos vazios de mata escura e mar azul
ai, dói no peito aparição assim
vai na alvorada-manhã
sai do mamilo marrom o leite doce e sal

tchau, mamãe, valeu

cresceu, vingou, permaneceu, aprendeu
nas bordas da favela
mandou, julgou, condenou, salvou,
executou, soltou, prendeu

colheu, esticou, encolheu,
matou, furou, fodeu
até ficar sem gosto

ganhou, reganhou, bateu, levou
mamãe perdeu perdeu perdeu

céu mar e mata mortos da luz desse olhar
antes assim do que viver pequeno e bom
não, diz isso não, diz isso não
a conta é outra tem que dar, tem que dar
foi mal, papai, anoiteceu

brilhou, piscou, bruxuleou,
ardeu, resplandeceu, a nave da cidade
o sol se pôs depois nasceu e nada aconteceu

(Caetano Veloso)




O cd novo do Caetano, "Zii e Zie", é ótimo. Tô curtindo. Muito. Demais. Imensamente.
Essa canção me diz coisas além e isso é bom e importante e próprio da poesia que encanta. A mim.

O Anjo

"Nisto, o Anjo que eu vira de pé sobre o mar e a terra levantou a mão direita para o céu e jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos — que criou o céu e tudo que nele existe, a terra e tudo o que nela existe, o mar e tudo que nele existe —: já não haverá mais tempo!"
(Apocalipse, 10, 5-6)

19 de mai de 2009

Paulista

Na Paulista
Os faróis já vão abrir
E um milhão de estrelas
Prontas pra invadir
Os jardins
Onde a gente aqueceu
Numa paixão
Manhãs frias de abril
Se a avenida
Exilou seus casarões
Quem reconstruiria
Nossas ilusões?
Me lembrei
De contar pra você
Nessa canção
Que o amor conseguiu
Você sabe quantas noites
Eu te procurei
Nessas ruas onde andei?
Conta onde passeia hoje
Esse seu olhar
Quantas fronteiras
Ele já cruzou
No mundo inteiro
De uma só cidade
Se os seus sonhos
Emigraram sem deixar
Nem pedra sobre pedra
Pra poder lembrar
Dou razão
É difícil hospedar
No coração
Sentimentos assim

(Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)



Essa gravação é das coisas mais lindas que existem no mundo. Como se não bastante a canção, linda; dentre os outros ótimos cantoress do Notícias dum Brasil estava Mônica Salmaso.

9 de mai de 2009

Banho Cheiroso

Você deve tomar banho cheiroso
Prá acabar com essa mofina
E o corpo ficar jeitoso
Você sente uma moleza
Sem ter doença nenhuma
Tem a vida atrapalhada
Não consegue coisa alguma
Então ouça o meu conselho
Ele é muito valoroso
Pois não perca mais seu tempo
E tome banho cheiroso
Você deve tomar
Banho cheiroso
Prá acabar com essa mofina
E o corpo ficar jeitoso
Ele é feito de tipy
Pau de angola e puxuri
Leva trevo de mulata
E também patchouli
Jardineira, pataqueira
E também manjericão
Leva rosa todo ano
Amoníaco e açafrão.
Você deve tomar banho cheiroso
Prá acabar com essa mofina
E o corpo ficar jeitoso

(Antonio Vieira)

com

RITA RIBEIRO

8 de mai de 2009

A linha e o linho

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão

A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

(Gilberto Gil)

Lágrimas negras

Na frente do cortejo o meu beijo
Muito forte como aço, meu abraço
São poços de petróleo a luz negra dos seus olhos
Lágrimas negras caem, saem
Dói
Por entre flores e estrelas
Você usa uma delas como brinco
Pendurada na orelha
Eu, o astronauta da saudade
Com a boca toda vermelha
Lágrimas negras caem, saem
Dói
São como pedras de um moinho que moem, roem, moem
E você, baby, vai, vem, vai
E você, baby, vem, vai, vem
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento

Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras caem, saem
Dói

(Jorge Mautner / Nelson Jacobina)


News

Acho que agora as letras terão som. Virão aqui como canções que são. Vejamos.

Segredo



Teu mal é comentar o passado
Ninguém precisa saber
O que houve entre nós dois
O peixe é pro fundo da rede
Segredo pra quatro paredes
Não deixe que males pequeninos
Venham transtornar os nossos destinos

Quando o infortúnio nos bate à porta
E o amos nos foge pela janela
A felicidade para nós está morta
E não se pode viver sem ela

Para o nosso mal
Não há remédio, coração
Ninguém tem culpa da nossa desunião

(Herivelto Martins / Marino Pinto)

5 de mai de 2009

Estopim

nada é tão fácil no início
nem no percurso nem no fim
nada é tão natural
nada é tão trivial
nem uma flor
nem todo jardim

amor que é simples se complica
e todo amor vai ficando assim
um faz algum sinal
o outro já interpreta mal
e o que era banal
vira um estopim

sim
detonou
foi um caos
nosso amor
ia bem
não tão bem
mas enfim
bem normal
complicou quando eu comentei
que era tão triste o seu olhar
"meu olhar, como assim?
a tristeza vem de você pra mim
a tristeza de um olhar
vem do outro olhar
vem de tanto olhar"
como assim?
"pelo olhar
pode haver um motim"
não entendi
mas senti
que era o fim

(Dante Ozzetti/Luiz Tatit)

Toque de reunir

toca sua vida
como quem pode
como quem nasce hábil
e não se ilude
que tem que se defender
toca na banda
tudo que pinta
toca atabaque
toca trombone
flauta, guitarra
e o que cair na mão
vai a um encontro
tenta um contato
toca um no outro
sente afeição
toca no assunto
toca no ponto
toca bem fundo
toca no coração
alguém tem que entender
toque de recolher
em silêncio

troca de vida
como quem sabe
como que já se toca
que não da outra
que a hora é de decidir
troca de banda
troca de estilo
troca de roupa
troca de imagem
tudo o que tinha
quer substituir
troca de ritmo
troca de signo
troca o destino
que quer seguir
troca de tema
troca a figura
troca o fundo
diz pra quem quer ouvir
alguém tem que sentir
toque de reunir
simplesmente

(Ná Ozzetti e Luiz Tatit)

Jóia

Beira de mar
Beira de mar
Beira de mar na América do Sul
Um selvagem levanta o braço
Abre a mão e tira um caju
Um momento de grande amor
De grande amor

Copacabana
Copacabana
Louca total e completamente louca
A menina muito contente
Toca a coca-cola na boca
Um momento de puro amor
De puro amor

(Caetano Veloso)

Errática

Nesta melodia em que me perco
Quem sabe, talvez um dia
Ainda te encontre minha musa
Confusa

Esta estrada me escorre do peito
E tão sem jeito
Se desenha entre as estrelas da galáxia
Em fúcsia...

Bússolas não há na cor dos versos
Usam como senha tons perversos
Busco a trilha certa, matematicamente
Só sei brincar de cabra-cega
Errática
Chega

Neste descaminho, meu caminho
Te percorre a ausência
Corpo, alma, tudo, nada, musa
Difusa.

O sorriso do gato de Alice se se visse
Não seria menos ou mais intocável
Que o teu, véu
Pausa de fração de semifusa
Pode conter tão grande tristeza

Busco o estilo exato
A tática eficaz
Do rock ao jazz
Do lied ao samba
Ao brega
Errática
Chega

(Caetano Veloso)

4 de mai de 2009

Você não sabe amar

Você não sabe amar meu bem
Não sabe o que é o amor
Nunca sofreu, nunca viveu
E quer saber mais que eu

O nosso amor parou aqui
E foi melhor assim
Eu esperava e você também
Que fosse esse o seu fim

O nosso amor não teve querida
As coisas boas da vida
E foi melhor para você
E foi também melhor pra mim

O nosso amor parou aqui
E foi melhor assim
Eu esperava e você também
Que fosse esse o seu fim

(Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima)
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