19 de nov. de 2008

Impossibilidade sobre mim

Mais do mesmo. Nem é criativo. Nem quero sê-lo. Quero me expressar. Mas penso. E busco. E quero atrelada a cada palavra uma iluminação. No túnel escuro por onde passa aquilo que chamo vida se espremem andam sensações e desejos e nuncas. Há sempre uma impossibilidade sobre mim. Uma rarefeita névoa sobre os meus desejos e sobre os meus movimentos uma densa e glacial neblina. Eu me perco. Labirinto. Eu me perco. Labirito. Eu vou não. Eu despiso. Desando. Desfaleço estátua. Inerte. Mas com coração. E assim a bruma depositada sobre a pele fria se confunde com as àguas quentes tristes do de dentro.

(a.l.k.)

5 de nov. de 2008

Ralador

Pra dor de amor, eu não faço sala
Amor me deixa, outro amor me embala
Eu sou um coco que seu ralador não rala
A tristeza quando chega
Se deixar, ela se instala
Se ela vê peito vazio
Quer fazer festa de gala, ê
Mas comigo não tem jeito
Ela nem desfaz a mala
Que um amor quando me deixa, sinhô
Tem outro em ponto de bala
A tristeza a gente sente
Quando o seu chicote estala
Se ela vê sinal de pranto
Lambe o beiço e se regala
Mas meu peito não se curva
À bota, tacão, bengala
Meu amor que é de quilombo (iáiá, kekerê, iê, iê)
Não se prende em dor de senzala

(Roque Ferreira e Paulo César Pinheiro)

Milágrimas

Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre

Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre

Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre

(Itamar Asumpção e Alice Ruiz)

Pela janela e o vento

É noite agora.
Noite de verdade.
O céu é opaco e profundamente azul, escuro, quase negro.
Cintilam poucas luzes de dentro dele.
Há bem mais luz ao redor. Mas não em mim.
Há o vento.
Se só ele existisse e mais nada eu seria também feliz.
Quem sabe.
Se ele soprasse em círculos, com rajadas alternadas
de frescor e de escaldante torpor.
De qualquer forma que ele me atingisse, eu iria.
Eu voava.
Voaria com ele para além.
Se eu pulasse ele me ergueria?
Se me jogasse todo em seus braços, o vento seria reconfortante berço?

(a.l.k.)

4 de nov. de 2008

Bosque

No topo da árvore
Na copa mais densa
Na folhagem mais verde
Há o repouso mais calmo
Perfumado pelos ventos.
Ora silente,
Ora inundado de delicados sons.
Assustadores sons:
O vento forte.
A ramagem,
Os rugidos.
Os pios estertorosos.
O orvalho por sobre as folhas
É o suor que brota da fronte angustiada.
Do temor da escuridão gotejam
Suores e lágrimas.
E de cima da árvore tudo é abismo.

(a.l.k.)

31 de out. de 2008

Gal e Tom




Em 1984, foi ao ar pela TV Manchete uma série de programas musicais chamada "A Música Segundo Tom Jobim". Com direção de Nelson Pereira dos Santos, o programa era gravado na casa do maestro, no Jardim Botânico, no Rio, com a participação de convidados recebidos muito à vontade por ele e seu piano.

No primeiro programa da série, Tom e Gal Costa, em companhia de Dori e Danilo Caymmi, fizeram uma homenagem a Ary Barroso, contando histórias e lembrando de algumas canções do grande compositor brasileiro.

Aparecem no vídeo: "Pra Machucar Meu Coração", "Faceira", "Canta Brasil" (Alcir Pires Vermelho), "Tema de Amor Por Gabriela" (Tom Jobim) e "Aquarela do Brasil".

Heróis da Liberdade

Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade

Passava noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia o fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria, com sabedoria
Deu sua decisão
Com flores e alegria
Veio a abolição
A independência Laureando
O seu brasão
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Essa brisa que a juventude afaga
Essa chama
Que o ódio não apaga pelo universo
É a evolução em sua legítima razão

Samba, ó samba
Tem a sua primazia
Em gozar de felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos heróis da liberdade

Ô, ô, ô, ô
Liberdade senhor!

(Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira)

29 de out. de 2008

O circo místico

Não
Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real

Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final

Chove tanta flor
Que, sem refletir
Um ardoroso espectador
Vira colibri

Qual
Não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação

Membros de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas no imenso vagão

Negro refletor
Flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si

Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal

(Edu Lobo - Chico Buarque/1982)

Para o balé O grande circo místico
Ilustração de Naum Alves de Souza

Hilda Hilst

"Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada."

"Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tami, para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar nenhum, meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti"

Gato gaiato (não minto pra mim)

Pelo o que me diz respeito
Eu sou feito de dúvidas
O que é torto, o que é direito diante da vida?
O que é tido como certo, duvido
Sou fraco, safado, sofrido
E não minto pra mim

Vou montado no meu medo
E mesmo que eu caia
Sou cobaia de mim mesmo
No amor e na raiva

Vira e mexe me complico
Reciclo, tô farto, tô forte, tô vivo
E só morro no fim

Lá do alto do telhado pula quem quiser
Só o gato que é gaiato cai de pé

E pra quem anda nos trilhos: cuidado com o trem
Eu por mim já descarrilho
E não atendo a ninguém
Só me rendo pelo brilho de quem vai fundo
E mergulha com tudo pra dentro de si

E se a gente coincidisse
Num sonho qualquer
Eu contigo, tu comigo
Os dois, homem e mulher
Sendo a soma e tendo a chance de ser
Um par de pessoas na boa
Vivendo felizes.

(Jean Garfunkel – Paulo Garfunkel – Prata)

19 de out. de 2008

I Need Some Fine Wine and You, You Need to Be Nicer

Sit, good dog, stay, bad dog, down, roll over
Well here's a good man and a pretty young girl
Trying to play together somehow,
I'm wasting my life, you're changing the world,
I get drunk and watch your head grow

It's the good times that we share
and the bad times that we'll have
It's the good times
and the bad times that we had

Well it's been a long slow collision,
I'm a pitbull, you're a dog,
Baby you're foul in clear conditions
But you're handsome in the fog

So I need some fine wine, and you, you need to be nicer
For the good times and the bad times
That we'll have

Sometimes we talk over dinner like old friends
Till I go and kill the bottle,
I go off over any old thing,
Break your heart
and raise a glass or ten

To the good times that we shared and the bad times that we'll have
To the good times
and the bad time that we've had

Well it's been a long slow collision,
I'm a pitbull, you're a dog,
Baby you're foul in clear conditions
But you're handsome in the fog

So I need some fine wine and you, you need to be nicer
For the good times
and the bad times we know will come
Yeah
I need some fine wine
and you, you need to be nicer
you need to be nicer
you need

For the good times
and the bad time that we had
Sit

Good times, bad times
Sweet wine, bad wine
Good cop, bad cop,
Lapdog, bad dog
Sit.

(THE CARDIGANS)


5 de out. de 2008

Paul Thomas Anderson's 'MAGNOLIA'

"...tenho amor para dar, só não sei onde colocá-lo..."




Aimee Mann's 'Wise Up'

It's not
What you thought
When you first began it
You got
What you want
Now you can hardly stand it though,
By now you know
It's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up

You're sure
There's a cure
And you have finally found it
You think
One drink
Will shrink you 'til you're underground
And living down
But it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up

Prepare a list of what you need
Before you sign away the deed
'Cause it's not going to stop
It's not going to stop
It's not going to stop
'Til you wise up
No, it's not going to stop
'Til you wise up
No, it's not going to stop
So just...give up

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Não é o que você pensou
Quando você começou isso
Você conseguiu o que queria
Agora você mal consegue suportar, embora
Agora você saiba, isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar

Você está certo de que existe uma cura
E que você finalmente encontrou ela.
Você pensa que um drinque
Vai encolher você, até você quase desaparecer
E estar no chão, mas isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar

Prepare uma lista do que você precisa
Antes que a morte venha te buscar
Porque isso não vai parar
Isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar

Não, isso não vai parar
Até você se tocar
Não, isso não vai parar
Então simplesmente desista

30 de set. de 2008

Tremmmmmmmmmmmmmmmmmm

Um trem que passa pela multidão. Um trem bala por entre os escombros. Rápido luzidio branco incólume limpo livre de toda sujeira ao redor. A sujeira das ruínas e dos corpos desmantelados, putrefatos, torpes, agonizantes, sangrentos. Um trem que ondula por entre a mágoa e a escuridão e segue brilhando, insensível. A coisa não sente. E eu também. A coisa é tão rápida que nem é nem está e é tudo e já não é. E eu sou nada silenciosamente e estertorosamente um tudo: milissegundo, e de novo: perplexo e inerte. O trem é mais coração que eu. Eu só tenho a máquina que faz jorrar o ferro líquido, o qual a coisa tão sólida faz disso a sua altivez: a dureza firme de seguir brilhante sobre o dilacerado.

(a.l.k.)

20 de set. de 2008

Comes love

Comes a rainstorm, put your rubbers on your feet
Comes a snowstorm, you can get a little heat
Comes love, nothing can be done
Comes a fire, then you know just what to do
Blow a tire, you can buy another shoe
Comes love, nothing can be done

Don't try hiding, 'cause there isn't any use
You will start sliding, when your heart turns on the juice
Comes a headache, you can lose it in a day
Comes a toothache, see your dentist right away
Comes love, nothing can be done


Comes a heat wave, you can hurry to the shore
Comes a summons, you can hide behind the door
Comes love, nothing can be done
Comes the measles, you can quarantine the room,
Comes a mousie, you can chase it with a broom
Comes love, nothing can be done.

That's all brother, if you ever been in love
That's all brother, you know just what I'm speaking of
Comes a nightmare, you can always stay awake
Comes depression, you may get another break
Comes love, nothing can be done

(Lew Brown / Sammy Stept / Charles Tobias)

always with BILLIE HOLIDAY, forever and ever

2 de set. de 2008

Negro Amor

Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol
Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada, negro amor
A estrada pra você e o jogo e a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha a maluquice em seu lençol
Sob seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada, negro amor
Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores, e agora?
Até o tapete sem você voou
E não tem mais nada, negro amor
As pedras do caminho, deixe para trás
Esqueça os mortos que eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua
Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada, negro amor

(Caetano Veloso - Pericles R. Cavalvanti - Bob Dylan)
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