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1 de jul. de 2013

das intermitências

por que não cessa?
até se talvez bom fosse
haveria de cessar enfim
mas pendularmente se mantém
em mim, de mim
ácido dorido e flamejante
mas que queima mesmo
por ser glacial
rocha gélida
que nunca esquenta embora
brilhe como e ao sol
mas não se esvai
perdura a fim de marcar 
eternamente a dor.
e o fim?

ALK

6 de dez. de 2010

Ri do rato

Suicídio é coisa séria!!!
Eu sei que é, por que até eu já passei por uma situação de desespero, depressão e com um final quase trágico. Fui salva por que meu pai chegou e me levou para um hospital.

Então, agora vocês já sabem, além de uma criança arteira fui uma adolescente problemática!!!
Mas não foi para contar este episódio triste de minha vida, que sentei aqui em frente ao meu amigo computador.

A história que vou contar é exagerada, cheia de percalços e mal entendidos que até a morte levaram.
Pode ter até certo humor negro, que hoje eu estou inspirada para isso. Calor de quarenta graus, ar condicionado estragado... Mas vamos lá não ta morto quem peleia!!! Ou tem sorte...

Tinha uma amiga, que me parecia perfeitamente normal. Tão normal quanto eu!!! Coitada...sei que não sou nada normal...rs....
Pois bem, um belo dia ela resolveu que ia se matar!! Pois é capote, acabar com sua raça.

Pensou em tomar ri do rato, conhecido remédio que acaba com as pragas roedoras. Imaginou que o gosto devia ser muito ruim, e queria tomar uma grande quantidade para que não restasse duvidas quanto ao resultado da obra.

Abacateiro no pátio, época de abacates!!! Mãos a obra!
Fez uma batida, ou vitamina, como preferirem. Misturou o ri do rato.
Cheirou, achou que estava bom, só tinha cheiro de abacate. Até que tinha uma boa aparência, geladinho e bem verdinho, estava doce é claro!

Porém achou que havia colocado pouco ri do rato, então decidiu dar um pouco para o cachorro da casa, um pastor alemão. Cachorro de grande porte, se ele não resistisse certamente ela também não iria.
O cachorro tomou tudo, feliz da vida, balançando o rabo satisfeito em ter algo diferente da usual ração.

Ela ficou na expectativa, só a observar.

O cachorro parecia o mesmo, nada de tremeliques, amolecimento de pernas, babas e ganidos. Achou que ia demorar um pouco para fazer efeito.

De súbito, achou melhor dar uma voltinha pela cidadezinha, visitar os seus lugares favoritos, quem sabe dar um último adeus à única amiga e ao safado do namorado que lhe dera um pé na bunda.
Guardou a vitamina na geladeira, queria conservar bem geladinha.

Deu uma volta rápida, coisa de trinta minutinhos, precisava voltar logo para olhar o Sultão.
Seu medo era ficar paralítica ou com alguma seqüela no cérebro (como se já não tivesse algumas, coitada), por isso contava que o cão já estivesse morto, se estivesse vivo e todo torto não tomaria o veneno.

E foi assim, que se sucedeu então: Encontrou o pobre Sultão , jogado no chão, olhos ainda esbugalhados, mas ,nem um suspiro no peito de cão.

Quando entrou na cozinha percebeu em choque o tio! Que era um folgado, daqueles que com certeza iria tomar a vitamina dos outros e ainda fazer cara de santo, no caso agora cara de morto! Cara de morto sim, por que ele estava pronto para servir num copo alto a deliciosa e mortífera vitamina!

Estabanada e afoita ela lhe deu um tapa, virando assim todo o creme verde dentro da pia.
Ele sem entender nada e achando que era mais uma mesquinhez e implicância da enervante adolescente saiu resmungando.

Ela achou melhor adiar o ato de morrer.
Tudo indicava que ia mesmo dar certo, a julgar pelo cão.
Mas também poderia ser um sinal o tio tentar se matar no lugar dela.
Melhor esperar mais um ou dois dias!!
Podia até ser que a vida melhorasse!!!! Ela achou.

Simone Mottola

KCN

1-Coloque água do filtro (não usar água mineral alguma, nem refrigerante ou água tônica, em virtude de sua acidez) num copo pequeno;

2- Dissolva nela um grama, ou no máximo um grama e meia, de cianureto de potássio. (o uso de quantidade maior provocará a sensação de queimadura na garganta).

3- Espere 5 minutos (para que a dissolução se tenha completado) antes de beber. (não é necessário beber em seguida, mas isso deve ser feito dentro de algumas horas, no máximo).

13 de nov. de 2010

Se Acontecer | Djavan



As estrelas brilham sem saber,
Mas cada vez melhor
Pois foi só você aparecer
Todas desceram pra ver
Você brilhar de cor.
O que mais chamou minha atenção?
Sua expressão sutil
Isso eu já não posso esquecer
Porque não foi só visão,
O coração sentiu.

A tenda da noite enche de sombra
Um sonhar vazio
Percorri tantas fontes até ver você
Sair do nada pros meus horizontes
Que a manhã pura e sã
Com as mãos de jasmim vá roçar seu rosto
Pro amor ardente despertar por mim
Deus é pai, vai saber
Se acontecer, serei seu até o fim!

Em tempo de chuva, que chova:
Eu não largo da sua mão!
Nem que caia um raio
Eu saio sem você na imaginação.

(Djavan)

4 de jul. de 2010

Cuba

Se Cuba não vai ao Papa
É o Papa que vai a Cuba
Quem acha que a vida é dura
Na vida não tem tal praça
Oi, não, se Cuba não vai, é o Papa que vem
Quem pensa que é, não sabe demais
Porque, malandro que é malandro é malandro demais

malandro que é malandro é malandro demais (2x)
malandro que é malandro

Se Cuba não vai ao Papa
É o Papa que vai a Cuba
Quem acha que a vida é dura
Na vida não tem tal praça
Oi, não, se Cuba não vai, é o Papa que vem
Quem pensa que é, não sabe demais
Porque, malandro que é malandro é malandro demais

malandro que é malandro é malandro demais (2x)
malandro que é malandro

Para Xangô, Iemanjá (4x)

Minha vida é o mar

O que da vida posso ter
como a vida deve ser
como o mundo deve ser
como a vida deve ser
com as balizas do nosso sistema
encaminhando seus filhos pra guerra

como a vida deve ser
O que da vida posso ter
como o mundo deve ser

nas as balizas do nosso sistema
encaminhando seus filhos pra guerra

(Solo)
no meio disso tudo eu não me envolvo não me sujo
até um tempo atras eu era um pobre vagabundo
andava pela rua nenhum trocado
ia a pé pra todo lado maltrapido e maltratado
maltrapido e maltratado falido e mau cuidado
quem vai abrir pra mim as portas da Babylonia

Se Cuba não vai ao Papa
É o Papa que vai a Cuba
Quem acha que a vida é dura
Na vida não tem tal praça
Oi, não, se Cuba não vai, é o Papa que vem
Quem pensa que é, não sabe demais
Porque, malandro que é malandro é malandro demais

malandro que é malandro é malandro demais (2x)
malandro que é malandrooo

Para Xangô, Iemanjá (4x)

Se aquilo tudo é o mar

Faça então desfaça
Quem tem fé em Deus se afasta
Não falei mania de Graça
Fala da zica só atrasa

Se Cuba não vai ao Papa
É o Papa que vai a Cuba
Quem acha que a vida é dura
Na vida não tem tal praça
Oi, não, se Cuba não vai, é o Papa que vem
Quem pensa que é, não sabe demais
Porque, malandro que é malandro é malandro demais

malandro que é malandro é malandro demais (2x)
malandro que é malandrooo

Para Xangô, Iemanjá (4x)



Beijinhos no rosto

A sua bexiga terá que ser removida inteiramente, disse Roberto. E nesses casos prepara-se um lugar para a urina ser armazenada, antes de ser excretada. Uma parte do seu intestino será convertida num pequeno saco, ligado aos ureteres. A urina desse receptáculo será direcionada para uma bolsa colocada em uma abertura na sua parede abdominal. Estou descrevendo esse procedimento em linguagem leiga para que você possa entender. Essa bolsa será oculta pelas suas roupas e terá que ser esvaziada periodicamente. Fui claro?

Foi, respondi acendendo um cigarro.

Gostaria de marcar a cirurgia para logo depois desses exames que estou pedindo. Já lhe falei da relação entre o câncer da bexiga e o fumo?

Não me lembro.

Três em cada cinco casos de câncer na bexiga são ligados ao fumo. Esse vínculo entre o fumo e o câncer da bexiga é especialmente forte entre os homens.

Prometo que vou deixar de fumar.

Este ano, no mundo, ocorrerão cerca de trezentos mil novos casos de câncer de bexiga.

É mesmo?

É o quarto tipo de câncer mais comum e a sétima causa de morte por câncer.

Tive vontade de mandar o Roberto parar de me chatear, mas ele, além de meu médico, era meu amigo.

O câncer de bexiga, ele continuou, pode ocorrer em qualquer idade, mas usualmente atinge pessoas com mais de cinqüenta anos. Você faz cinqüenta anos no mês que vem. É um mês mais velho do que eu.

Estou atrasado para um compromisso, tenho que ir, Roberto.

Não se esqueça de fazer os exames.

Saí correndo. Eu não tinha encontro algum. Queria fumar outro cigarro em paz. E também precisava encontrar alguém que me arranjasse um revólver. Lembrei-me do meu irmão.

Telefonei para ele.

Você ainda tem aquela arma? Tenho. Por quê?

Quer vender?

Não.

Você não tem medo de que um dos teus filhos ache o revólver e dê um tiro na cabeça do outro? Uma coisa assim aconteceu outro dia. Deu no jornal.

Meu revólver está trancado numa gaveta.

O desse infeliz, segundo dizia o jornal, também.

Eu não li nada sobre isso.

Você sempre diz que só lê a manchete do jornal. Isso não dá manchete, acontece todo dia.

E como é que foi?

O menino estava brincando de mocinho e bandido com o irmão e a desgraça aconteceu. Qualquer dia vou ler no jornal que um sobrinho meu matou o outro numa brincadeira.

Deixa de ser agourento.

Vou passar aí hoje à noite.

Chegando na casa do meu irmão ele me disse, olha aqui esta gaveta, você acha que dois pirralhos podem arrombar essa fechadura?

Podem. Como? Quer ver eu arrombar essa merda?

Você é um adulto.

Onde é que está a Helena?

Está no quarto.

Chama ela aqui.

Contei para a mulher dele a tal notícia do jornal, que eu inventara.

Vivo pedindo ao Carlos para se livrar dessa porcaria, mas ele não me ouve, disse Helena.

Eu vim aqui para comprar o revólver, mas esse idiota não quer vender.

O que você vai fazer com o revólver?, perguntou Carlos.

Nada. Possuí-lo, apenas. Eu sempre quis ter um revólver.

Helena e o meu irmão discutiram algum tempo. Ela venceu o debate ao dizer que um dos meninos podia pegar o chaveiro quando meu irmão estivesse dormindo, ou quando ele esquecesse o chaveiro num lugar onde os moleques pudessem achar, ou em outra ocasião qualquer. Afinal, Carlos abriu a gaveta e tirou o revólver.

E você, para piorar as coisas, mantém esse troço carregado, eu disse, depois de examinar a arma.

Maluco irresponsável, disse Helena, furiosa, você sempre me disse que o revólver não tinha balas. Olha, deixa o seu irmão levar essa porcaria com ele, agora. Do contrário eu saio de casa e levo as crianças.

Peguei o revólver e fui para o meu apartamento. Telefonei para a minha namorada. Senti vontade de ir ao banheiro mas sabia que ia ver sinais de sangue na urina, o que sempre me dava calafrios. Isso podia atrapalhar o meu encontro. Urinei de olhos fechados e também de olhos fechados acionei a válvula de descarga várias vezes.

Enquanto esperava minha namorada, fiquei pensando no futuro, fumando e tomando uísque. Eu não ia ficar a vida inteira enchendo com xixi uma bolsa colada no corpo, que depois tinha que ser esvaziada, sei lá de que maneira. Como eu poderia ir à praia? Como poderia fazer amor com uma mulher? Imaginei o horror que ela sentiria ao ver aquela coisa.

Minha namorada chegou e fomos para a cama.

Você está preocupado com alguma coisa, ela disse, depois de algum tempo.

Não estou me sentindo bem.

Não se preocupe, querido, podemos ficar apenas conversando, adoro conversar com você.

Essa é uma das piores frases que um homem pode ouvir quando está nu com uma mulher nua na cama.

Levantamos e nos vestimos sem olhar um para o outro. Fomos para a sala. Conversamos um pouco. Minha namorada olhou para o relógio, disse tenho que ir, querido, me deu uns beijinhos no rosto, foi embora e eu dei um tiro no peito.

Mas esta história não termina aqui..Eu devia ter atirado na cabeça, mas foi no peito e não morri. Durante a convalescença, Roberto me visitou várias vezes para dizer que tínhamos pouco tempo, mas ainda podíamos fazer a cirurgia da bexiga, com êxito.

Isso foi feito. Agora eu esvazio com facilidade a bolsa de urina. Ela fica bem escondida sob a roupa, ninguém percebe que está ali, sobre o meu abdome. O câncer parece que foi extirpado. Não tenho mais namorada e estou viciado em palavras cruzadas. Deixei de ir à praia. Fui uma vez, para jogar o revólver no mar.

(Rubem Fonseca. Secreções, excreções e desatinos, Companhia das Letras - São Paulo, 2001, p. 59)

4 de fev. de 2010

Chasing Pirates

In your message you said
You were goin' to bed, but I'm not done with the night.
So I stayed up and read
But your words in my head
Got me mixed up so I turned out the light.

And I, don't know how, to slow it down.
My mind's racing from chasing pirates.

Now an ambulance screams
While the silliest things
Are floppin around in my brain.
And I try not to dream
Up impossible schemes,
That swim around, wanna drown me insane.

And I, don't know how, to slow it down.
Oh my mind's racing from chasing pirates.

My mind's racin' from chasing pirates.

(Norah Jones)





28 de out. de 2009

Zombie

Another head hangs lowly

Child is slowly taken
And the violence caused such silence
Who are we mistaken?

But you see, it's not me, it's not my family
In your head, in your head they are fighting
With their tanks and their bombs
And their bombs and their guns
In your head, in your head, they are crying...

In your head, in your head
Zombie, zombie, zombie hey, hey
What's in your head? In your head
Zombie, zombie, zombie?
Hey, hey, hey, oh, dou, dou, dou, dou, dou...

Another mother's breaking
Heart is taking over
When the violence causes silence
We must be mistaken

It's the same old theme since nineteen-sixteen
In your head, in your head they're still fighting
With their tanks and their bombs
And their bombs and their guns
In your head, in your head, they are dying...

In your head, in your head
Zombie, zombie, zombie
Hey, hey. What's in your head
In your head
Zombie, zombie, zombie?
Hey, hey, hey, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh, hey, oh, ya, ya-a...

(Dolores O'Riordan)


Jay Brannan



20 de ago. de 2009

Língua do Pê

Gaparanpantopo quepe vopocêpê
Garanto que você
Nãpão vapai não vai
Nãpão vapai não vai
Compomprepeenpendeper
Bulhufas
Bulhufas
Dopo quepe tempentapamopos lhepe dipizeper
Não tem problema
Não tem problema

Espetapamopos pelaí
Não tem problema
Não tem problema
Espetapamopos espepeperanpandopo coisas pela aí

Smetak tak tak tak (tak tak tak tak tak)
Mariá bababa baba baba
Catuaba
Cachoeira
Vão me procurar na Lapa
Na gruta da Mangabeira
Quarta-feira de manhã
Quarta-feira de manhã

(Gilberto Gil)


28 de jul. de 2009

Por una cabeza

Por una cabeza
de un noble potrillo
que justo en la raya
afloja al llegar,
y que al regresar
parece decir:
No olvidéis, hermano,
vos sabés, no hay que jugar.
Por una cabeza,
metejón de un día
de aquella coqueta
y risueña mujer,
que al jurar sonriendo
el amor que está mintiendo,
quema en una hoguera
todo mi querer.

Por una cabeza,
todas las locuras.
Su boca que besa,
borra la tristeza,
calma la amargura.
Por una cabeza,
si ella me olvida
qué importa perderme
mil veces la vida,
para qué vivir.

Cuántos desengaños,
por una cabeza.
Yo jugué mil veces,
no vuelvo a insistir.
Pero si un mirar
me hiere al pasar,
sus labios de fuego
otra vez quiero besar.
Basta de carreras,
se acabó la timba.
¡Un final reñido
ya no vuelvo a ver!
Pero si algún pingo
llega a ser fija el domingo,
yo me juego entero.
¡Qué le voy a hacer..!

(Alfredo Le Pera)


26 de abr. de 2009

Joana francesa

Tu ris, tu mens trop
Tu pleures, tu meurs trop
Tu as le tropique
Dans le sang et sur la peau
Geme de loucura e de torpor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Mata-me de rir
Fala-me de amor
Songes et mensonges
Sei de longe e sei de cor
Geme de prazer e de pavor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

Vem molhar meu colo
Vou te consolar
Vem, mulato mole
Dançar dans mes bras
Vem, moleque me dizer
Onde é que está
Ton soleil, ta braise

Quem me enfeitiçou
O mar, marée, bateau
Tu as le parfum
De la cachaça e de suor
Geme de preguiça e de calor
Já é madrugada
Acorda, acorda, acorda, acorda, acorda

(Chico Buarque)

20 de abr. de 2009

Capitu

De um lado vem você com seu jeitinho
Hábil, hábil, hábil
E pronto!
Me conquista com seu dom

De outro esse seu site petulante
WWW
Ponto
Poderosa ponto com

É esse o seu modo de ser ambíguo
Sábio, sábio
E todo encanto
Canto, canto
Raposa e sereia da terra e do mar
Na tela e no ar

Você é virtualmente amada amante
Você real é ainda mais tocante
Não há quem não se encante

Um método de agir que é tão astuto
Com jeitinho alcança tudo, tudo, tudo
É só se entregar, é não resistir, é capitular

Capitu
A ressaca dos mares
A sereia do sul
Captando os olhares
Nosso totem tabu
A mulher em milhares
Capitu

No site o seu poder provoca o ócio, o ócio
Um passo para o vício, vício, vício
É só navegar, é só te seguir, e então naufragar

Capitu
Feminino com arte
A traição atraente
Um capítulo à parte
Quase vírus ardente
Imperando no site
Capitu

(Luiz Tatit)

24 de jan. de 2009

A OBSCENA SENHORA D.

"Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem por isso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud; A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu a procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas. Derrelição Ehud me dizia, Derrelição – pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud, compreender o quê? isso de vida e morte, esses porquês. Escute, Senhora D, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, heim? E apalpava, escorria os dedos na minha anca, nas coxas, encostava a boca nos pêlos, no meu mais fundo, dura boca de Ehud, fina úmida e aberta se me tocava, eu dizia olhe espere, queria tanto te falar, não, não faz agora, Ehud, por favor, queria te falar, te falar da morte de Ivan Ilitch, da solidão desse homem, desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não é existe mas é crua, é viva, o Tempo."
(...)

(Hilda Hilst)

29 de out. de 2008

O circo místico

Não
Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real

Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final

Chove tanta flor
Que, sem refletir
Um ardoroso espectador
Vira colibri

Qual
Não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação

Membros de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas no imenso vagão

Negro refletor
Flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si

Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal

(Edu Lobo - Chico Buarque/1982)

Para o balé O grande circo místico
Ilustração de Naum Alves de Souza

23 de mai. de 2008

Da Maior Importância

Foi um pequeno momento, um jeito
Uma coisa assim
Era um movimento que aí você não pôde mais
Gostar de mim direito
Teria sido na praia, medo
Vai ser um erro, uma palavra
A palavra errada
Nada, nada
Basta quase nada
E eu já quase não gosto
E já nem gosto do modo que de repente
Você foi olhada por nós

Porque eu sou tímido e teve um negócio
De você perguntar o meu signo quando não havia
Signo nenhum
Escorpião, sagitário, não sei que lá
Ficou um papo de otário, um papo
Ia sendo bom
É tão difícil, tão simples
Difícil, tão fácil
De repente ser uma coisa tão grande
Da maior importância
Deve haver uma transa qualquer
Pra você e pra mim
Entre nós

E você jogando fora, agora
Vá embora, vá!
Há de haver um jeito qualquer, uma hora!
Há sempre um homem
Para uma mulher
Há dez mulheres para cada um
Uma mulher é sempre uma mulher etc. e tal
E assim como existe disco voador
E o escuro do futuro
Pode haver o que está dependendo
De um pequeno momento puro de amor

Mas você não teve pique e agora
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Você não teve pique
E agora não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Mas você
Não teve pique
E agora
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique


(Caetano Veloso)

9 de mar. de 2007

FALA

Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala
Fala
Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala
Fala

(João Ricardo - Luhli)
Secos e Molhados
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