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30 de dez. de 2010

Se um brasileiro num dia de dezembro…

Não, não pergunte nada. Pense apenas que, se um anjo bateu exatamente à sua porta nesta época do ano, e se tão exato entrou e sentou à sua frente, ninguém melhor do que ele saberá, com exatidão, o que fazer. Então espere.

(Caio Fernando Abreu. Se um brasileiro num dia de dezembro… In: Pequenas Epifanias)

6 de dez. de 2010

Ri do rato

Suicídio é coisa séria!!!
Eu sei que é, por que até eu já passei por uma situação de desespero, depressão e com um final quase trágico. Fui salva por que meu pai chegou e me levou para um hospital.

Então, agora vocês já sabem, além de uma criança arteira fui uma adolescente problemática!!!
Mas não foi para contar este episódio triste de minha vida, que sentei aqui em frente ao meu amigo computador.

A história que vou contar é exagerada, cheia de percalços e mal entendidos que até a morte levaram.
Pode ter até certo humor negro, que hoje eu estou inspirada para isso. Calor de quarenta graus, ar condicionado estragado... Mas vamos lá não ta morto quem peleia!!! Ou tem sorte...

Tinha uma amiga, que me parecia perfeitamente normal. Tão normal quanto eu!!! Coitada...sei que não sou nada normal...rs....
Pois bem, um belo dia ela resolveu que ia se matar!! Pois é capote, acabar com sua raça.

Pensou em tomar ri do rato, conhecido remédio que acaba com as pragas roedoras. Imaginou que o gosto devia ser muito ruim, e queria tomar uma grande quantidade para que não restasse duvidas quanto ao resultado da obra.

Abacateiro no pátio, época de abacates!!! Mãos a obra!
Fez uma batida, ou vitamina, como preferirem. Misturou o ri do rato.
Cheirou, achou que estava bom, só tinha cheiro de abacate. Até que tinha uma boa aparência, geladinho e bem verdinho, estava doce é claro!

Porém achou que havia colocado pouco ri do rato, então decidiu dar um pouco para o cachorro da casa, um pastor alemão. Cachorro de grande porte, se ele não resistisse certamente ela também não iria.
O cachorro tomou tudo, feliz da vida, balançando o rabo satisfeito em ter algo diferente da usual ração.

Ela ficou na expectativa, só a observar.

O cachorro parecia o mesmo, nada de tremeliques, amolecimento de pernas, babas e ganidos. Achou que ia demorar um pouco para fazer efeito.

De súbito, achou melhor dar uma voltinha pela cidadezinha, visitar os seus lugares favoritos, quem sabe dar um último adeus à única amiga e ao safado do namorado que lhe dera um pé na bunda.
Guardou a vitamina na geladeira, queria conservar bem geladinha.

Deu uma volta rápida, coisa de trinta minutinhos, precisava voltar logo para olhar o Sultão.
Seu medo era ficar paralítica ou com alguma seqüela no cérebro (como se já não tivesse algumas, coitada), por isso contava que o cão já estivesse morto, se estivesse vivo e todo torto não tomaria o veneno.

E foi assim, que se sucedeu então: Encontrou o pobre Sultão , jogado no chão, olhos ainda esbugalhados, mas ,nem um suspiro no peito de cão.

Quando entrou na cozinha percebeu em choque o tio! Que era um folgado, daqueles que com certeza iria tomar a vitamina dos outros e ainda fazer cara de santo, no caso agora cara de morto! Cara de morto sim, por que ele estava pronto para servir num copo alto a deliciosa e mortífera vitamina!

Estabanada e afoita ela lhe deu um tapa, virando assim todo o creme verde dentro da pia.
Ele sem entender nada e achando que era mais uma mesquinhez e implicância da enervante adolescente saiu resmungando.

Ela achou melhor adiar o ato de morrer.
Tudo indicava que ia mesmo dar certo, a julgar pelo cão.
Mas também poderia ser um sinal o tio tentar se matar no lugar dela.
Melhor esperar mais um ou dois dias!!
Podia até ser que a vida melhorasse!!!! Ela achou.

Simone Mottola

16 de ago. de 2010

A Luneta Mágica

Joaquim Manuel Macedo

INTRODUÇÃO

I

Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome.

Nasci sob a influência de uma estrela malígna, nasci marcado com o selo do infortúnio.

Sou míope; pior do que isso, duplamente míope míope física e moralmente.

Miopia física:- a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta.

E por isso ando na cidade e não vejo as casas.

Miopia moral:- sou sempre escravo das idéias dos outros; porque nunca pude ajustar duas idéias minhas.

E por isso quando vou às galerias da câmara temporária ou do senado, sou consecutiva e decididamente do parecer de todos os oradores que falam pró e contra a matéria em discussão.

Se ao menos eu não tivesse consciência dessa minha miopia moral!... mas a convicção profunda de infortúnio tão grande é a única luz que brilha sem nuvens no meu espírito

Disse-me um negociante meu amigo que por essa luz da consciência represento eu a antítese de não poucos varões assinalados que não tem dez por cento de capital da inteligência que ostentam, e com que negociam na praça das coisas publicas.

-- Mas esses varões não quebram, negociando assim?... perguntei-lhe.

-- Qual! são as coisas públicas que andam ou se mostram quebradas.

-- E eles?...

-- Continuam sempre a negociar com o crédito dos tolos, e sempre se apresentam como boas firmas.

Na cândida inocência da minha miopia moral não pude entender se havia simplicidade ou malícia nas palavras do meu amigo.


II

Aos doze anos de idade achei-me no mundo órfão de pai e de mãe.

Eu estava acostumado a ver pelos olhos de minha mãe, a pensar pela inteligência de meu pai; fiquei, pois, nas trevas dos olhos e da razão.

Meus pais eram ricos, e deviam deixar-me, deixaram-me por certo, avultada fortuna; quanto, não sei: meu irmão mais velho que tomou conta dos meus bens, minha tia Domingas que tomou conta da minha pessoa, e minha prima Anica que se criou comigo e que é um talento raro, pois até aprendeu latim, hão de saber disso melhor do que eu.

Dizem eles que a minha fortuna vai a vapor, ignoro se para trás se para diante, porque os barcos e carros a vapor avançam e recuam à custa do gás impulsor; mas o meu amigo negociante declarou-me que por certas razões que não compreendo, nas quais, também não sei porque, entra a pessoa da prima Anica, devo confiar muito no zelo da tia Domingas.

E eu confio nela o mais possível; porque é uma senhora que anda sempre de rosário e em orações e que tendo alguma coisa de seu, apesar de tão religiosa, nua deu nem dá um vintém de esmola ao pobre que lhe bate à porta, pretextando sempre que tem muita vontade de fazer esmolas evangélicas; porem que ainda não achou meio de esconder da mão esquerda o óbulo da caridade pago pela mão direita.

Estou tão profundamente convencido da pureza dos sentimentos religiosos da tia Domingas, que desde que ela tomou conta de mim, vivo em sustos de que algum dia a piedosa senhora mande amputar a mão esquerda para conseguir dar esmolas com a mão direita, conforme o preceito evangélico de que em sua santa severidade não quer prescindir.


III

Aos dezoito anos de idade comecei a compreender todas as proporções da minha desgraça dupla: chorei, lastimei-me, pedi médicos para os meus olhos, e mestres para minha inteligência.

A força de muito rogar e bradar consegui que me dessem uns e outros.

Os mestres ganharam o seu dinheiro e eu quase que perdi todo o meu tempo com eles; porque bem pouco lucrei no empenho de combater a minha miopia moral.

O mais hábil dos meus professores declarou-me no fim de quatro anos que um mancebo tão rico de cabedais como eu era, podia bem reputar-se literato de avantajado merecimento, sabendo ler, escrever e as quatro espécies da aritmética.

Convencido sempre que só me diziam a verdade, e tendo conseguido saber, aos vinte e dois anos de idade, ler mal, escrever pior, e fazer com a maior dificuldade as quatro espécies da aritmética, mandei embora o hábil professor, e fiquei literato.

Os médicos falaram-me em córnea transparente, em cristalino, em raios luminosos muito convergentes, em retina, e não sei em que mais, e acabaram por dizer-me que aos sessenta, ou setenta anos de idade, eu havia de ver muito melhor.

Dos médicos alopatas recebi esta consolação de melhor visão aos setenta anos, se estivesse vivo; dos homeopatas sei se me deram o cristalino em glóbulos, ou os raios convergentes em tintura; mas o fato é que em resultado de dez conferências e de vinte tratamentos diversos não vi uma linha adiante do que via, e apenas posso gabar-me de não ter ficado cego com a luz de tanta ciência.

O meu desgosto foi aumentando com os anos.

Meu irmão, que é um santo homem, me dizia:

-- Consola-te, mano; tudo tem compensação: a tua miopia é uma desgraça; mas porque és míope não vês como são bonitos os bordados da farda de um ministro de estado, e portanto não te exasperas por não poder ostentá-los.

Convém saber que meu irmão saiu eleito deputado na última designação constitucional, e mandou fazer a sua libré parlamentar ainda antes de ser reconhecido representante legítimo do povo soberano que anda de paletó e de jaqueta.

Deste fato e da sua observação concluí eu em minha simplicidade que o mano Américo vive doido por ser ministro para fazer o bem da pátria.

E não é só ele; a prima Anica já sonhou três vezes com mudança de gabinete, e com correios e ordenanças à porta de nossa casa.

Inocente menina! é um anjo: os seus sonhos são piedosos como as vigílias da tia Domingas, sua mãe, e patrióticos, como os cálculos o mano deputado; ela diz com virginal franqueza que tem meia dúzia de parentes pobres a arranjar, quando o mano Américo for ministro.

Meia dúzia só!... que abnegação e que desinteresse da prima Anica!

Ela está se tornando tão profundamente religiosa como a tia Domingas.

Já fez um ponto de fé deste suavíssimo princípio: "a caridade deve começar por casa".


13 de jul. de 2010

Estala coração de vidro pintado





























[para aumentar, clicar]

Texto de Fernanda Young publicado na Playboy onde ela foi capa.

5 de jul. de 2010

Intimidade

Tinha um negocinho verde na minha escova de dentes. Tava preso na base das cerdas. Enfiei a unha ali até conseguir tirar. Era um pedaço de alface.
— Linda, tem uma porra dum pedaço de alface na minha escova!
— ...
— Tu andou usando a minha escova de dente?
— Claro que não! – ela gritou da sala.
— E desde quando eu como alface? Eu não como planta e tu sabe muito bem. Por que tu usou minha escova?
— ...
— Linda, por que tu usou a minha escova?

— Eu perdi a minha. Ela perdeu a escova dela.
— Como é que é?

— Perdi a minha escova, droga! Usei a tua uma vez só, não vai te matar.
— Como assim perdeu a tua escova? Como alguém per¬de uma escova de dentes?
— Sei lá, caralho, ela sumiu.
Como faria ela entender que não se usa a escova de dentes de outra pessoa? Linda é assim mesmo. Ela é capaz de perder sua própria escova de dentes. Ela dorme no meu apar-

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tamento nos fins-de-semana e às vezes aparece também nos dias úteis, pra comer minha comida, beber minha cerveja e dormir abraçadinha comigo. Somos como todo mundo, precisamos disso de vez em quando. Ao voltar pra sala, esperava que ela pedisse desculpas por ter usado minha escova. Ela nem olhou pra mim, estava futricando alguma coisa entre os dedos do pé. Eu ainda segurava a escova de dentes, ofendido. Precisava de alguma indicação de arrependimento dela, só pra neutralizar este meu ódio irracional causado pelo pedaço de alface, um ódio que no momento me parecia justificado, e cuja banalidade só pude perceber minutos mais tarde. A indiferença dela me irritou tanto que atirei a escova de dentes na sua direção.
— Agora pega essa merda pra ti.
Eu sei que não precisava. Mas pequenas causas de orgulho e ódio são excelentes motivadoras de atos impensados. Ela catou o cinzeiro de vidro e jogou na minha cara, acertou na testa.
— Qual é a tua? Imbecil.
Dei um tapa na cara dela.
Tirei toda a roupa de Linda e deitei-a de bruços na cama. Ela ainda chorava. Lambi a parte interna de suas coxas. Ela botou os fones de ouvido nas orelhas e ligou o walkman. Depois empinou um pouco a bunda, mas não muito, senão

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sente dores nas costas. Como sempre, começou a falar, agora contando uma história sobre o irmão menor dela, que certa vez trouxe duas tartarugas para criar em casa. Ele construiu um viveiro enorme para elas, com mais de um metro quadrado. Tinha um laguinho, plantas, pedras, uma caverna, tudo que uma tartaruga poderia desejar. Com a cara enfiada entre as nádegas dela, eu podia escutar por trás deste fascinante monólogo o som dos fones de ouvido, era uma fita da PJ Harvey. Mantinha os olhos sempre fechados. Desde o primeiro dia, o irmão colocou folhas de alface no viveiro das tartarugas (creio que não foi proposital a escolha de um epi¬sódio envolvendo alface, deve ter sido uma associação men¬tal inconsciente, não pude culpá-la). No primeiro dia elas não comeram. Nem no segundo. Aproximei o dedo da boca para cobri-lo de saliva. Toquei o cu de Linda, ela interrompeu por alguns décimos de segundo a sua história. Depois continuou, só que mais pausadamente. Tinha parado de chorar, e sorria docemente enquanto falava. O irmão experimentou dar pedaços de carne às tartarugas, mas elas rejeitaram. Depois de cinco dias de jejum, elas estavam bastante debilitadas. Os cascos amoleceram. O cuzinho dela rendia-se, ma¬cio. Enfiei devagar, medindo no mesmo ato violência e carinho. A ternura que sentia por Linda naquele instante era intolerável. Ela ficou quieta por um tempo. Logo depois retomou a narrativa, agora pontuada por expirações curtas e vigorosas. As tartarugas estavam quase mortas, quando ocorreu ao irmão colocar as folhas de alface no laguinho. Os bichos pularam para dentro d'água e devoraram compulsiva-


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mente a verdura. Como poderia saber que só comiam dentro da água? Mas as tartarugas estavam salvas. Peguei um dos fones, botei na minha orelha e beijei Linda até que nossas bocas já não soubessem mais o que fazer. Quando a fita ter¬minou ela disse:
— Vamos no cinema.
(é que logo em seguida ao tapa percebi todo o absurdo daquele nosso enfrentamento, ela nem botou a mão no rosto nem nada, apenas encarou-me incrédula e esperou, pois já sabia que eu pediria perdão, me arrependeria, me sentiria mal, um merda, um filho da puta. Abracei-a com força naquele silêncio que vem depois de todo tapa, apaziguamo-nos, não havia problema que ela usasse minha escova, que usasse qualquer coisa, mas às vezes precisamos de inimigos para descarregar nossa amargura. Realizei meu ataque utilizando como pretexto o primeiro evento disponível e espera¬va que ela me desse razão para que todo o meu pequeno ódio pelo mundo tivesse fundamento. Não fui capaz de ver as coisas do ponto de vista de Linda, que ela pudesse usar a minha escova de dentes caso precisasse era um pressuposto de nossa intimidade, algo importante para ela. Abracei-a e pedi desculpas muitas vezes, ela chorou mas senti-me perdoado, nos beijamos, acontece, a gente briga de vez em quando eu falei, ela sorriu um pouquinho, é, acontece. Fomos para o

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quarto, enfiei a mão por dentro de sua camiseta, acariciei suas costas, a gente se ama, ela ainda chorava.)
Fomos assistir uma comédia romântica bobalhona. Linda adorava melodramas, dizia que "às vezes é bom ver filmes desse tipo". Vinte minutos de caminhada até o cinema, escurecia. Antes do filme sentamos para tomar um café. Linda fumou três cigarros, quantidade que ela costuma consumir em dois dias. Não gosto quando ela fuma, pega um gosto horrível na boca. Na bilheteria do cinema, vimos o cartaz do filme escolhido. Tinha a Julia Roberts. Entramos atrasa¬dos numa sala de projeção com uma dúzia de sujeitos espalhados aos pares pela platéia. Sentamos numa fileira do fundo. Quando o filme começou ela encostou a cabeça no meu ombro. Segurei sua mão.
O início era o mesmo de todo filme norte-americano. Uma divertida cena introdutória, seguida da apresentação de cada um dos personagens. Linda me sussurrou no ouvido que precisava ir no banheiro. Depois que saiu, desliguei minha atenção do filme e caí num fluxo de devaneios. Imaginei minha vida sem Linda e compreendi o quanto verdadeira¬mente precisávamos um do outro. Sem ela eu tinha uma rotina de aulas e emprego, uma família no interior, um apartamento vazio, pouco mais do que isso. E eu, de certa forma, era pra ela um salva-vidas no meio de pais conservadores e

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pessoas, na sua opinião, idiotas. Todos eram idiotas.
Linda não retornava. Saí do cinema e gritei por ela no banheiro feminino, sem obter resposta. Procurei-a nos bares e cafés ao redor, mas ela havia desaparecido.
Concluí que devia ter voltado para o meu apartamento, ela tinha uma cópia da chave e dificilmente teria ido pra casa da família. Retornei para o meu prédio sem saber ao certo como reagiria ao encontrá-la, ou que explicação ela me daria, caso houvesse alguma. O apartamento, porém, estava vazio.
Sentei numa mesa da calçada e pedi um copo de trigo velho e uma Coca-Cola. Os bares já estavam todos cheios, passava das nove horas da noite. Reconheci uma pessoa aproximando-se a partir da calçada oposta. Era o Beto, um amigo dos tempos de colégio, que eu encontrava ocasionalmente pela noite. Sentou-se na minha mesa.
— E aí, como é que tá? Eu sabia que ia encontrar alguém pra tomar uma ceva!
— Oi.
— Vou baixar uma ceva pra nós!
Apenas sacudi a cabeça, elevando meu copo de trigo velho no ar. Torci para que ele entendesse a mensagem sem que eu precisasse dizer mais nada.
— Ah, ok. Mas vou tomar uma sozinho, então.

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— E aí, o que tem feito? Cadê a Linda?
— Boa pergunta.
— Vocês ainda tão juntos?
— Sim.
— Tou com saudade dela.
— ...
— Como vai a faculdade? Publicidade, né?
— Jornalismo.
— Isso. Tá curtindo?
— Não. Um pouco.
Ele encheu o copo com cerveja e bebeu num gole só. Olhou para baixo e depois para os lados. Tirou uma caixa de lenços de papel do interior da mochila, puxou um e assoou o nariz. Olhou para baixo novamente, e depois pra mim:
— Tu tá a fim de ficar sozinho?
— Na verdade, sim. Não leva a mal.
— Tudo bem. A gente se fala uma outra hora, então. Vou indo.
Esvaziou a garrafa no copo e tomou tudo, apressado. Nos cumprimentamos e ele se afastou. Chamei o garçom e pedi mais um copo de trigo velho. Bebi sozinho até que o álcool se tornasse um assunto mais urgente do que a ausência de Linda.
Entrei no apartamento, fui imediatamente ao quarto e encontrei ela deitada de lado na cama. Tirara apenas os sapa-

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tos e dormia com a boca entreaberta. Me ajoelhei e observei mais de perto seu rosto, parcialmente encoberto pelos cabe¬los emaranhados. Tinha olheiras, e a maquiagem preta e azul dos olhos estava um pouco borrada, enchendo de tristeza a cara bonita.
Voltei para a sala e avistei sobre a poltrona uma garrafa de vodka quase vazia. Estava aberta, deitada de lado assim como Linda sobre a cama, e uma porção de bebida havia escapado pela gargalo e molhado a almofada.
Peguei um copo na cozinha, enchi com água da torneira e bebi, repetindo mais duas vezes. No caminho para o banheiro, estranhei a presença de um saco plástico sobre a mesa da sala. Tinha no lado de fora o logotipo de uma farmácia. De dentro do saco, tirando uma por uma, contei vinte e oito escovas de dente.

(Daniel Galera, Dentes guardados. Livros do Mal: Porto Alegre, 2004. 3ª. ed. revista)

4 de jul. de 2010

Beijinhos no rosto

A sua bexiga terá que ser removida inteiramente, disse Roberto. E nesses casos prepara-se um lugar para a urina ser armazenada, antes de ser excretada. Uma parte do seu intestino será convertida num pequeno saco, ligado aos ureteres. A urina desse receptáculo será direcionada para uma bolsa colocada em uma abertura na sua parede abdominal. Estou descrevendo esse procedimento em linguagem leiga para que você possa entender. Essa bolsa será oculta pelas suas roupas e terá que ser esvaziada periodicamente. Fui claro?

Foi, respondi acendendo um cigarro.

Gostaria de marcar a cirurgia para logo depois desses exames que estou pedindo. Já lhe falei da relação entre o câncer da bexiga e o fumo?

Não me lembro.

Três em cada cinco casos de câncer na bexiga são ligados ao fumo. Esse vínculo entre o fumo e o câncer da bexiga é especialmente forte entre os homens.

Prometo que vou deixar de fumar.

Este ano, no mundo, ocorrerão cerca de trezentos mil novos casos de câncer de bexiga.

É mesmo?

É o quarto tipo de câncer mais comum e a sétima causa de morte por câncer.

Tive vontade de mandar o Roberto parar de me chatear, mas ele, além de meu médico, era meu amigo.

O câncer de bexiga, ele continuou, pode ocorrer em qualquer idade, mas usualmente atinge pessoas com mais de cinqüenta anos. Você faz cinqüenta anos no mês que vem. É um mês mais velho do que eu.

Estou atrasado para um compromisso, tenho que ir, Roberto.

Não se esqueça de fazer os exames.

Saí correndo. Eu não tinha encontro algum. Queria fumar outro cigarro em paz. E também precisava encontrar alguém que me arranjasse um revólver. Lembrei-me do meu irmão.

Telefonei para ele.

Você ainda tem aquela arma? Tenho. Por quê?

Quer vender?

Não.

Você não tem medo de que um dos teus filhos ache o revólver e dê um tiro na cabeça do outro? Uma coisa assim aconteceu outro dia. Deu no jornal.

Meu revólver está trancado numa gaveta.

O desse infeliz, segundo dizia o jornal, também.

Eu não li nada sobre isso.

Você sempre diz que só lê a manchete do jornal. Isso não dá manchete, acontece todo dia.

E como é que foi?

O menino estava brincando de mocinho e bandido com o irmão e a desgraça aconteceu. Qualquer dia vou ler no jornal que um sobrinho meu matou o outro numa brincadeira.

Deixa de ser agourento.

Vou passar aí hoje à noite.

Chegando na casa do meu irmão ele me disse, olha aqui esta gaveta, você acha que dois pirralhos podem arrombar essa fechadura?

Podem. Como? Quer ver eu arrombar essa merda?

Você é um adulto.

Onde é que está a Helena?

Está no quarto.

Chama ela aqui.

Contei para a mulher dele a tal notícia do jornal, que eu inventara.

Vivo pedindo ao Carlos para se livrar dessa porcaria, mas ele não me ouve, disse Helena.

Eu vim aqui para comprar o revólver, mas esse idiota não quer vender.

O que você vai fazer com o revólver?, perguntou Carlos.

Nada. Possuí-lo, apenas. Eu sempre quis ter um revólver.

Helena e o meu irmão discutiram algum tempo. Ela venceu o debate ao dizer que um dos meninos podia pegar o chaveiro quando meu irmão estivesse dormindo, ou quando ele esquecesse o chaveiro num lugar onde os moleques pudessem achar, ou em outra ocasião qualquer. Afinal, Carlos abriu a gaveta e tirou o revólver.

E você, para piorar as coisas, mantém esse troço carregado, eu disse, depois de examinar a arma.

Maluco irresponsável, disse Helena, furiosa, você sempre me disse que o revólver não tinha balas. Olha, deixa o seu irmão levar essa porcaria com ele, agora. Do contrário eu saio de casa e levo as crianças.

Peguei o revólver e fui para o meu apartamento. Telefonei para a minha namorada. Senti vontade de ir ao banheiro mas sabia que ia ver sinais de sangue na urina, o que sempre me dava calafrios. Isso podia atrapalhar o meu encontro. Urinei de olhos fechados e também de olhos fechados acionei a válvula de descarga várias vezes.

Enquanto esperava minha namorada, fiquei pensando no futuro, fumando e tomando uísque. Eu não ia ficar a vida inteira enchendo com xixi uma bolsa colada no corpo, que depois tinha que ser esvaziada, sei lá de que maneira. Como eu poderia ir à praia? Como poderia fazer amor com uma mulher? Imaginei o horror que ela sentiria ao ver aquela coisa.

Minha namorada chegou e fomos para a cama.

Você está preocupado com alguma coisa, ela disse, depois de algum tempo.

Não estou me sentindo bem.

Não se preocupe, querido, podemos ficar apenas conversando, adoro conversar com você.

Essa é uma das piores frases que um homem pode ouvir quando está nu com uma mulher nua na cama.

Levantamos e nos vestimos sem olhar um para o outro. Fomos para a sala. Conversamos um pouco. Minha namorada olhou para o relógio, disse tenho que ir, querido, me deu uns beijinhos no rosto, foi embora e eu dei um tiro no peito.

Mas esta história não termina aqui..Eu devia ter atirado na cabeça, mas foi no peito e não morri. Durante a convalescença, Roberto me visitou várias vezes para dizer que tínhamos pouco tempo, mas ainda podíamos fazer a cirurgia da bexiga, com êxito.

Isso foi feito. Agora eu esvazio com facilidade a bolsa de urina. Ela fica bem escondida sob a roupa, ninguém percebe que está ali, sobre o meu abdome. O câncer parece que foi extirpado. Não tenho mais namorada e estou viciado em palavras cruzadas. Deixei de ir à praia. Fui uma vez, para jogar o revólver no mar.

(Rubem Fonseca. Secreções, excreções e desatinos, Companhia das Letras - São Paulo, 2001, p. 59)

20 de jun. de 2010

A descoberta do mundo

O que eu quero contar é tão delicado quanto a própria vida. Eu quereria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva.
Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo aliás atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. Ou será que eu adivinhava mas turvava minha possibilidade de lucidez para poder, sem me escandalizar comigo mesma, continuar em inocência a me enfeitar para os meninos? Enfeitar-me aos onze anos de idade consistia em lavar o rosto tantas vezes até que a pele esticada brilhasse. Eu me sentia pronta, então. Seria minha ignorância um modo de me manter ingênua para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos? Acredito que sim. Porque eu sempre soube de coisas que nem eu mesma sei que sei.
As minhas colegas de ginásio sabiam de tudo e inclusive, contavam anedotas a respeito. Eu não entendia mas fingia compreender para que elas não me desprezassem e à minha ignorância.
Enquanto isso, sem saber da realidade, continuava por puro instinto a flertar com os meninos que me agradavam, a pensar neles. Meu instinto precedera a minha inteligência.
Até que passados os treze anos, como se só então eu me sentisse madura para receber alguma realidade que me chocasse, contei a uma amiga íntima o meu segredo: que eu era ignorante e fingira de sabida. Ela mal acreditou, tão bem eu havia antes fingido. Mas terminou sentindo minha sinceridade e ela própria encarregou-se ali mesmo de me esclarecer o mistério da vida. Só que também ela era uma menina e não soube falar de um modo que não ferisse a minha sensibilidade de então. Fiquei paralisada olhando para ela, misturando perplexidade, terror, indignação, inocência mortalmente ferida. Mentalmente eu gaguejava: mas por quê? mas para quê? O choque foi tão grande – e por uns meses traumatizantes – que ali mesmo na esquina jurei alto que nunca iria me casar.
Embora meses depois esquecesse o juramento e continuasse com meus pequenos namoros.
Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. Esse adulto saberia como lidar com uma alma infantil sem martirizá-la com a surpresa, sem obrigá-la a ter toda sozinha que se refazer para de novo aceitar a vida e os seus mistérios.
Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo até hoje surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.

(Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, Rocco, 1999. p. 113-115)

29 de mai. de 2010

O Rio (João Cabral de Melo Neto)

Da lagoa da Estaca a Apolinário

Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para os bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que se sente o mesmo
e exigente chamar.
Eu já nasci descendo
a serra que se diz do Jacarará,
entre caraïbeiras
de que só sei por ouvir contar
(pois, também como gente,
não consigo me lembrar
desas primeiras léguas
de meu caminhar).

Deste tudo que me lembro,
lembro-me bem de que baixava
entre terras de sêde
que das margens me vigiavam.
Rio menino, eu temia
aquela grande sêde de palha,
grande sêde sem fundo
que águas meninas cobiçava.
Por isso é que ao descer
caminho de pedras eu buscava,
que não leito de areia
com suas bôcas multiplicadas.
Leito de pedra abaixo
rio menino eu saltava.
Saltei até encontrar
as terras fêmeas da Mata.

Notícia do Alto Sertão

Por trás do que lembro,
ouvi de uma terra desertada,
vaziada, não vazia,
mais que sêca, calcinada.
De onde tudo fugia,
onde só pedra é que ficava,
pedras e poucos homens
com raízes de pedra, ou de cabra.
Lá o céu perdia as nuvens,
derradeiras de suas aves;
as árvores, a sombra,
que nelas já não pousava.
Tudo o que não fugia,
gaviões, urubus, plantas bravas,
a terra devastada
ainda mais fundo devastava.

A estrada da Ribeira

Como aceitara ir
no meu destino de mar,
preferi essa estrada,
para lá chegar,
que dizem da ribeira
e à costa vai dar,
que dêste mar de cinza
vai a um mar de mar;
preferi essa estrada
de muito dobrar,
estrada bem segura
que não tem errar
pois é a que tôda a gente
costuma tomar
(na gente que regressa
sente-se cheiro de mar).

De Apolinário a Poço Fundo

Para o mar vou descendo
por essa estrada da ribeira.
A terra vou deixando
de minha infância primeira.
Vou deixando uma terra
reduzida à sua areia,
terra onde as coisas vivem
a natureza da pedra.
À mão direita os ermos
do Brejo da Madre de Deus,
Taquaritinga à esquerda,
onde o êrmo é sempre o mesmo.
Brejo ou Taquaritinga,
mão direita ou mão esquerda,
vou entre coisas poucas
e sêcas além de sua pedra.

Deixando vou as terras
de minha primeira infância.
Deixando para trás
os nomes que vão mudando.
Terras que eu abandono
porque é de rio estar passando.
Vou com passo de rio,
que é de barco navegando.
Deixando para trás
as fazendas que vão ficando.
Vendo-as, enquanto vou,
parece que estão desfilando.
Vou andando lado a lado
de gente que vai retirando;
vou levando comigo
os rios que vou encontrando.

Os rios

Os rios que eu encontro
vão seguindo comigo.
Rios são de água pouca,
em que a água sempre está por um fio.
Cortados no verão
que faz secar todos os rios.
Rios todos com nome
e que abraço como a amigos.
Uns com nome de gente,
outros com nome de bicho,
uns com nome de santo,
muitos só com apelido.
Mas todos como a gente
que por aqui tenho visto:
a gente cuja vida
se interrompe quando os rios.

De Poço Fundo a Couro d'Anta

A gente não é muita
que vive por esta ribeira.
Vê-se alguma caieira
tocando fogo ainda mais na terra;
vê-se alguma fazenda
com suas casas desertas:
vêm para a beira da água
como bichos com sêde.
As vilas não são muitas
e quase tôdas estão decadentes.
Constam de poucas casas
e de uma pequena igreja,
como, no itinerário,
já as descrevia Frei Caneca.
Nenhuma tem escola;
muito poucas possuem feira.

As vilas vão passando
com seus santos padroeiros.
Primeiro é Poço Fundo,
onde Santo Antônio tem capela.
Depois é Santa Cruz
onde o Senhor Bom Jesus se reza.
Toritama, antes Tôrres,
fêz para a Conceição sua igreja.
A vila de Capado
chama-se pela sua nova capela.
Em Topada, a igreja
com um cemitério se completa.
No lugar Couro d'Anta,
a Conceição também se celebra.
Sempre um santo preside
à decadência de cada uma delas.

A estrada da Paraíba

Depois de Santa Cruz,
que agora é Capibaribe,
encontro uma outra estrada
que desce da Paraíba.
Saltando o Cariri
e a serra de Taquaritinga,
na estrada da ribeira
ela deságua como num rio.
Juntos, na da ribeira,
continuamos, a estrada e o rio,
agora com mais gente:
a que por aquela estrada descia.
Lado a lado com gente
viajamos em companhia.
Todos rumo do mar
e do Recife êsse navio.

Na estrada da ribeira
até o mar ancho vou.
Lado a lado com gente,
no meu andar sem rumor.
Não é estrada curta,
mas é a estrada melhor,
porque na companhia
de gente é que sempre vou.
Sou viajante calado,
para ouvir histórias bom,
a quem podeis falar
sem que eu tente me interpor;
junto de quem podeis
pensar alto, falar só.
Sempre em qualquer viagem
o rio é o companheiro melhor.

Do riacho as Éguas ao ribeiro do Mel

Caruaru e Vertentes
na outra manhã abandonei.
Agora é Surubim,
que fica do lado esquerdo.
A seguir João Alfredo,
que também passa longe e não vejo.
Enquanto na direita
tudo são terras de Limoeiro.
Meu caminho divide,
de nome, as terras que desço.
Entretanto a paisagem,
com tantos nomes, é quase a mesma.
A mesma dor calada,
o mesmo soluço sêco,
mesma morte de coisa
que não apodrece mas seca.

Coronéis padroeiros
vão desfilando com cada vila.
Passam Cheos, Malhadinha,
muito pobres e sem vida.
Depois é Salgadinho
com pobre águas curativas.
Depois é São Vicente,
muito morta e muito antiga.
Depois, Pedra Tapada,
com poucos votos e pouca vida.
Depois é Pirauíra,
é um só arruado seguido,
partido em muitos nomes
mas todo êle pobre e sem vida
(que só há esta resposta
à ladainha dos nomes dessas vilas).

29 de out. de 2009

Diálogo

Para Luiz Arthur Nunes

A: Você é meu companheiro.
B: Hein?
A: Você é meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que você é meu companheiro.
B: O que é que você quer dizer com isso?
A: Eu quero dizer que você é meu companheiro. Só isso.
B: Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
A: Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
B: Não é disso que estou falando.
A: Você está falando do quê, então?
B: Eu estou falando disso que você falou agora.
A: Ah, sei. Que eu sou teu companheiro.
B: Não, não foi assim: que eu sou teu companheiro.
A: Você também sente?
B: O quê?
A: Que você é meu companheiro?
B: Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.
A: Atrás do companheiro?
B: É.
A: Não.
B: Você não sente?
A: Que você é meu companheiro? Sinto, sim. Claro que eu sinto. E você, não?
B: Não. Não é isso. Não é assim.
A: Você não quer que seja isso assim?
B: Não é que eu não queira: é que não é.
A: Não me confunda, por favor, não me confunda. No começo era claro.
B: Agora não?
A: Agora sim. Você quer?
B: O quê?
A: Ser meu companheiro.
B: Ser teu companheiro?
A: É.
B: Companheiro?
A: Sim.
B: Eu não sei. Por favor, não me confunda. No começo era claro. Tem alguma coisa atrás, você não vê?
A: Eu vejo. Eu quero.
B: O quê?
A: Que você seja meu companheiro.
B: Hein?
A: Eu quero que você seja meu companheiro, eu disse.
B: O quê?
A: Eu disse que eu quero que você seja meu companheiro.
B: Você disse?
A: Eu disse?
B: Não. Não foi assim: eu disse.
A: O quê?
B: Você é meu companheiro.
A: Hein?
(ad infinitum)

Caio Fernando Abreu



21 de mai. de 2009

El ángel

“Y el ángel que vi en pie sobre el mar y sobre la tierra, levantó su mano al cielo, y juró por el que vive por los siglos de los siglos, que creó el cielo y las cosas que están en él, y la tierra y las cosas que están en ella, y el mar y las cosas que están en él, que el tiempo no sería más.” (Apocalipsis, , 10, 5-6)

20 de mai. de 2009

O Anjo

"Nisto, o Anjo que eu vira de pé sobre o mar e a terra levantou a mão direita para o céu e jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos — que criou o céu e tudo que nele existe, a terra e tudo o que nela existe, o mar e tudo que nele existe —: já não haverá mais tempo!"
(Apocalipse, 10, 5-6)

27 de jan. de 2009

Uma história confusa

"Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada. Daqui há pouco você vai crescer e achar tudo isso ridículo. Antes que tudo se perca, enquanto ainda posso dizer sim, por favor chegue mais perto".
(Ovelhas negras, Caio Fernando Abreu)

24 de jan. de 2009

A OBSCENA SENHORA D.

"Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem por isso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud; A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu a procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas. Derrelição Ehud me dizia, Derrelição – pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud, compreender o quê? isso de vida e morte, esses porquês. Escute, Senhora D, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, heim? E apalpava, escorria os dedos na minha anca, nas coxas, encostava a boca nos pêlos, no meu mais fundo, dura boca de Ehud, fina úmida e aberta se me tocava, eu dizia olhe espere, queria tanto te falar, não, não faz agora, Ehud, por favor, queria te falar, te falar da morte de Ivan Ilitch, da solidão desse homem, desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não é existe mas é crua, é viva, o Tempo."
(...)

(Hilda Hilst)

27 de jan. de 2008

O caderno rosa de Lori Lamby

Papi não está mais triste não, ele está é diferente, acho que é porque ele está escrevendo a tal bananeira, quero dizer a bandalheira que o Lalau quer. Eu tenho que continuar a minha história e vou pedir depois pro tio Lalau se ele não quer pôr o meu caderno na máquina dele, pra ficar livro mesmo. Eu contei pro papi que gosto muito de ser lambida, mas parece que ele nem me escutou, e se eu pudesse eu ficava muito tempo na minha caminha com as pernas abertas mas parece que não pode porque faz mal, e porque tem isso da hora. É só uma hora, quando é mais, a gente ganha mais dinheiro, mas não é todo mundo que tem tanto dinheiro assim pra lamber. O moço falou que quando ele voltar vai trazer umas meias furadinhas pretas pra eu botar. Eu pedi pra ele trazer meias cor-de-rosa porque eu gosto muito de cor-de-rosa e se ele trazer eu disse que vou lamber o piupiu dele bastante tempo, mesmo sem chocolate. Ele disse que eu era uma putinha muito linda. Ele quis também que eu voltasse pra cama outra vez, mas já tinha passado uma hora e tem uma campainha quando a gente fica mais de uma hora no quarto. Aí ele só pediu pra dar um beijo no meu buraquinho lá atrás, eu deixei, ele pôs a língua no meu buraquinho e eu não queria que ele tirasse a língua, mas a campainha tocou de novo. E depois quando ele saiu, eu ouvi uma briga, mas ele disse que ia pagar de um jeito bom, ele usou uma palavra que eu depois perguntei pra mamãe e mami disse que essa palavra que eu perguntei é regiamente. Então regiamente, ele disse. Eu ouvi mami dizer que esse verão bem que a gente podia ir pra praia, mas eu fico triste porque não vamos ter as pessoas pra eu chupar como sorvete e me lamber como gato se lambe. Por que será que ninguém descobriu pra todo mundo ser lambido e todo mundo ia ficar com dinheiro pra comprar tudo o que eu vejo, e todos também iam comprar tudo, porque todo mundo só pensa em comprar tudo. Os meus amiguinhos lá da escola falam sempre dos papi e das mami deles que foram fazer compras, e eu então acho que eles são lambidos todo dia. É mais gostoso ser lambido que lamber, aquele dia que eu lambi o piupiu de chocolate do homem foi gostoso mas acho que é porque tinha chocolate. Sem chocolate eu ainda não lambi ele.

(Hilst, Hilda; O caderno rosa de Lori Lamby. SP: Massao Ohno, 1992.) NOVA EDIÇÃO: GLOBO, 2005
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