Chora, desabafa seu peito, Chora, você tem o direito. Se tratando de amor, qualquer um pode chorar. Não se envergonhedo pranto, que é privilégio de quem sabe amar. Quem não teve amor nunca sofreu, E desconhece o que é agonia. Abra o peito e deixe o pranto livre como eu. Ah, desabafe a melancolia.
O ciúme dói nos cotovelos Na raiz dos cabelos Gela a sola dos pés Faz os músculos ficarem moles E o estômago vão e sem fome Dói da flor da pele ao pó do osso Rói do cóccix até o pescoço Acende uma luz branca em seu umbigo Você ama o inimigo E se torna inimigo do amor O ciúme dói do leito à margem Dói pra fora na paisagem Arde ao sol do fim do dia Corre pelas veias na ramagem Atravessa a voz e a melodia
Quando cansei de esperar você Vi minha estrela maior renascer Vi minha vida mais colorida Cheia de encanto e de mais prazer. Vi quando o mar se abriu Deixando passar todo o meu sentimento Até na chuva e no vento Vi a luz da poesia. Minha alegria voltou Brilhando no alvorecer Quando deixei de amar E esperar por você.
(Dona Ivone Lara / Délcio Carvalho)
Roberta Sá e Rildo Hora Interpretam Dona Ivone Lara
Aos pés da Santa Cruz você se ajoelhou Em nome de Jesus um grande amor você jurou Jurou, mas não cumpriu, fingiu e me enganou Pra mim você mentiu Pra Deus você pecou O coração tem razões que a própria razão desconhece Faz promessas e juras, depois esquece Seguindo este princípio você também prometeu Chegou até a jurar um grande amor Mas depois esqueceu
(Marino Pinto e José Gonçalves "Zé da Zilda")
Último grande sucesso de Orlando Silva na gravadora Victor, "Aos Pés da Cruz" já era bem conhecido meses antes de sua gravação, quando o cantor o lançou em programas radiofônicos, numa excursão ao Norte e Nordeste. Abordando o tema da jura descumprida, muito explorado na época ("Aos pés da Santa Cruz / você se ajoelhou / e em nome de Jesus/ um grande amor você jurou / jurou mas não cumpriu / fingiu e me enganou..."), o samba agradou tanto que recebeu imediata continuação - "Quem Mente Perde a Razão" -, de autoria do próprio Zé da Zilda (José Gonçalves) e lançado por Nelson Gonçalves , sucessor de Orlando na gravadora. Orlando Silva Co-autor de "Aos Pés da Cruz", Marino Pinto cita na segunda parte o célebre aforismo "O coração tem razões que a própria razão desconhece", do filósofo francês Blaise Pascal. Numa demonstração de sua admiração por Orlando, João Gilberto regravaria este samba em seu primeiro elepê, em 1959. Sua versão, com outras harmonias e uma interpretação lisa, mostraria como composições antigas poderiam ser perfeitamente amoldadas à bossa nova. Assim é que o repertório desse disco (Chega de Saudade) mistura, em completa sintonia, canções nascidas sob o signo do novo movimento com sambas tradicionais como "Morena Boca de Ouro", "Rosa Morena" e este "Aos Pés da Cruz".
Orlando Silva, acompanhado por Miranda e seu Regional.
Eu encontrei quando não quis mais procurar o meu amor. E quanto levou foi p'reu merecer antes um mês e eu já não sei... E até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei. E ninguém dirá que é tarde demais, que é tão diferente assim. Do nosso amor a gente é que sabe! Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém afim de te acompanhar. E se o caso for de ir à praia eu levo essa casa numa sacola! Eu encontrei e quis duvidar. Tanto cliché, deve não ser. Você me falou pr'eu não me preocupar ter fé e ver coragem no amor. E só de te ver eu penso em trocar a minha TV num jeito de te levar... a qualquer lugar que você queira e ir onde o vento for, que pra nós dois sair de casa já é se aventurar. Vai, me diz o que é o sossêgo que eu te mostro alguém afim de te acompanhar E se o tempo for te levar eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar.
Minha namorada tem segredos Tem nos olhos mil brinquedos De magoar o meu amor Minha namorada, muito amada Não entende quase nada Nunca vem de madrugada Procurar por onde estou É preciso, ó doce namorada Seguirmos firmes na estrada Que leva nenhuma dor Minha doce e triste namorada Minha amada, idolatrada Salva, salva o nosso amor
Pálpebras de neblina, pele d'alma Lágrima negra tinta Lua, lua, lua Giuletta Masina Ah, puta de uma outra esquina Ah, minha vida sozinha Ah, tela de luz puríssima (existirmos a que será que se destina) Ah, Giuletta Masina Ah, vídeo de uma outra luz Pálpebras de neblina, pele d'alma Giuletta Masina Aquela cara é o coraçao de Jesus
Quem vem lá Que horas são Isso não são horas, que horas são É você, é o ladrão Isso não são horas, que horas são Quem vem lá Blim blem blão Isso não são horas, que horas são
A casa está bonita A dona está demais A última visita Quanto tempo faz Balançam os cabides Lustres se acenderão O amor vai pôr os pés No conjugado coração Será que o amor se sente em casa Vai sentar no chão Será que vai deixar cair A brasa no tapete coração
Quando aumentar a fita As línguas vão falar Que a dona tem visita E nunca vai casar Se enroscam persianas Louças se partirão O amor está tocando O suburbano coração Será que o amor não tem programa Ou ama com paixão Mulher virando no sofá Sofá virando cama coração O amor já vai embora Ou perde a condução Será que não repara A desarrumação Que tanta cerimônia Se a dona já não tem Vergonha do seu coração
"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre;(…)" (Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego")