14 de fev. de 2008

Receptáculo

Um oceano de lodo
Frio:
E lá no frio lodo sem luz
As memórias que jamais escapam.
Lá no lodo frio sem luz
Os pensamentos recorrentes todos,
Lá no sem luz frio lodo,
As pessoas sem carne nem alma
que teimam em existir
Quando não havia
Quando não devia
Quando não podia nada haver.
O frio lodo sem luz
Nutre o que é mau.

(a.l.k.)

13 de fev. de 2008

A Ordem é Samba

É samba que eles querem
Eu tenho
É samba que eles querem
Lá vai
É samba que eles querem
Eu canto
É samba que eles querem
Nada mais

No Rio de Janeiro
Todo mundo vai de samba
A pedida é sempre samba
E eu também vou castigar

Lá vai, lá vou eu de samba
Somente samba
A ordem é samba
E nada mais

(Jackson do Pandeiro / Severino Ramos)

Boys Don't Cry

I would say I'm sorry
If I thought that it would change your mind
But I know that this time
I've said too much
Been too unkind

I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try and
Laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
Boys don't cry

I would break down at your feet
And beg forgiveness
Plead with you
But I know that
It's too late
And now there's nothing I can do

So I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try to
laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry

I would tell you
That I loved you
If I thought that you would stay
But I know that it's no use
That you've already
Gone away

Misjudged your limits
Pushed you too far
Took you for granted
I thought that you needed me more

Now I would do most anything
To get you back by my side
But I just
Keep on laughing
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
Boys don't cry
Boys don't cry


THE CURE

Inbetween Days

Yesterday I got so old
I felt like I could die
Yesterday I got so old
It made me want to cry
Go on go on
Just walk away
Your choice is made
Go on go on
And disappear
Go on go on
Away from here

And I know I was wrong
When I said it was true
That it couldn't be me and be her
Inbetween without you
Without you

Yesterday I got so scared
I shivered like a child
Yesterday away from you
It froze me deep inside
Come back come back
Don't walk away
Come back come back
Come back today
Come back come back
Why can't you see
Come back come back
Come back to me

And I know I was wrong
When I said it was true
That it couldn't be me and be her
Inbetween without you
Without you

THE CURE

2 de fev. de 2008

Não há jeito

Padrão sempre quase há.
Um desejo reincidente, monolítico
E sôfrego.
Do cerco ninguém escapa.
Àqueles que força fazem
e dilatam as paredes
e alongam as linhas
É dado o direito de se moverem.
Uma concessão.
Entretanto sempre dentro estarão.
Não há jeito.

(a.l.k.)

Samba de amor e ódio

Não há abrigo contra o mal
Nem sequer a ilha idílica na qual
A mulher e o homem vivam afinal
Qual se quer
Tão só de amor num canto qualquer.

Erra quem sonha com a paz
Mas sem a guerra
O céu existe pois existe a terra
Assim também nessa vida real
Não há o bem sem o mal.

Nem há amor sem que uma hora
O ódio venha
Bendito ódio
O ódio que mantém a intensidade do amor
Seu ardor, a densidade do amor, seu vigor
E a outra face do amor vem a flor
Na flor que nasce do amor.

Porém há que saber fazer sem opor
O bem ao mal prevalecer
E o amor ao ódio incerto em nosso ser se impor
E a dor que acerta o prazer sobrepor
E ao frio que nos faz sofrer o calor
E a guerra enfim a paz vencer.

Erra quem sonha com a paz
Mas sem a guerra
O céu existe pois existe a terra
Assim também nessa vida real
Não há o bem sem o mal.

Nem há amor sem que uma hora
O ódio venha
Bendito ódio
O ódio que mantém a intensidade do amor
Seu ardor, a densidade do amor, seu vigor
E a outra face do amor vem à flor
Na flor que nasce do amor.

(Pedro Luís e Carlos Rennó)

27 de jan. de 2008

Onde andarás?

Onde andarás nesta tarde vazia
Tão clara e sem fim?
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces de mim
Enquanto o mar bate azul em Ipanema
Em que bar, em que cinema te esqueces...
Eu sei, meu endereço apagaste do teu coração
A cigarra do apartamento
O chão de cimento existem em vão
Não serve pra nada a escada, o elevador
Já não serve pra nada a janela
A cortina amarela, perdi meu amor
E é por isso que eu saio pra rua
Sem saber pra quê
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso me leve a você
Na esperança talvez de que o acaso
Por mero descaso
Me leve... eu sei

(Caetano Veloso/Ferreira Goulart)

O fascínio do fogo

e o medo do amor

(a.l.k)

Fiel

(a.l.k)

Livre e inquieto

(a.l.k)

Movimento dos barcos

Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

(Jards Macalé e Capinan)

Mares da Espanha

Nem que eu caminhasse às três da manhã
Nem que eu me enganasse prá ver o que é bom
Nem que eu caminhasse até o Leblon
Não iria encontrar

Você navegando os mares da Espanha
Tecendo prá outra seu corpo com manha
Você navegando o vazio da Espanha
E eu no Leblon

Loucura é loucura não me compreenda
Loucura é loucura pior é a emenda
Loucura é loucura não me repreenda
Eu amei demais

Você quando acorda tem gente do lado
Mas eu quando durmo é um sono abafado
De uísque e vergonha
Por nunca encontrar você...
Ainda insiste na experiência
Pensando que o amor é como a ciência
Amantes diversas não vão trazer nada a mais

Loucura é loucura não me compreenda
Loucura é loucura pior é a emenda
Loucura é loucura não me repreenda
Eu amei demais

Nem que eu caminhasse de volta prá casa
Deixando as mentiras e os sonhos prá trás
Tentando viver o real de um amor
Que se deu demais

Nem que eu caminhasse às seis da manhã
Nem que eu me cegasse prá ver o que é bom
Nem que eu rastejasse até o Leblon
Não iria encontrar....

Loucura é loucura não me compreenda
Loucura é loucura pior é a emenda
Loucura é loucura não me repreenda
Eu amei demais


(Angela Rô Rô)

O caderno rosa de Lori Lamby

Papi não está mais triste não, ele está é diferente, acho que é porque ele está escrevendo a tal bananeira, quero dizer a bandalheira que o Lalau quer. Eu tenho que continuar a minha história e vou pedir depois pro tio Lalau se ele não quer pôr o meu caderno na máquina dele, pra ficar livro mesmo. Eu contei pro papi que gosto muito de ser lambida, mas parece que ele nem me escutou, e se eu pudesse eu ficava muito tempo na minha caminha com as pernas abertas mas parece que não pode porque faz mal, e porque tem isso da hora. É só uma hora, quando é mais, a gente ganha mais dinheiro, mas não é todo mundo que tem tanto dinheiro assim pra lamber. O moço falou que quando ele voltar vai trazer umas meias furadinhas pretas pra eu botar. Eu pedi pra ele trazer meias cor-de-rosa porque eu gosto muito de cor-de-rosa e se ele trazer eu disse que vou lamber o piupiu dele bastante tempo, mesmo sem chocolate. Ele disse que eu era uma putinha muito linda. Ele quis também que eu voltasse pra cama outra vez, mas já tinha passado uma hora e tem uma campainha quando a gente fica mais de uma hora no quarto. Aí ele só pediu pra dar um beijo no meu buraquinho lá atrás, eu deixei, ele pôs a língua no meu buraquinho e eu não queria que ele tirasse a língua, mas a campainha tocou de novo. E depois quando ele saiu, eu ouvi uma briga, mas ele disse que ia pagar de um jeito bom, ele usou uma palavra que eu depois perguntei pra mamãe e mami disse que essa palavra que eu perguntei é regiamente. Então regiamente, ele disse. Eu ouvi mami dizer que esse verão bem que a gente podia ir pra praia, mas eu fico triste porque não vamos ter as pessoas pra eu chupar como sorvete e me lamber como gato se lambe. Por que será que ninguém descobriu pra todo mundo ser lambido e todo mundo ia ficar com dinheiro pra comprar tudo o que eu vejo, e todos também iam comprar tudo, porque todo mundo só pensa em comprar tudo. Os meus amiguinhos lá da escola falam sempre dos papi e das mami deles que foram fazer compras, e eu então acho que eles são lambidos todo dia. É mais gostoso ser lambido que lamber, aquele dia que eu lambi o piupiu de chocolate do homem foi gostoso mas acho que é porque tinha chocolate. Sem chocolate eu ainda não lambi ele.

(Hilst, Hilda; O caderno rosa de Lori Lamby. SP: Massao Ohno, 1992.) NOVA EDIÇÃO: GLOBO, 2005

26 de jan. de 2008

Farol

Pelas horas e pelo tempo que existe num sentimento ou numa palavra vem o sentido difuso do olhar para dentro. O farol de dentro só virá será por segundos e de novo escuridão e de novo silêncio, farol com guizos, engrenagens rangentes. Dolorosas. A alternância que ele faz nos círculos é fracionado sentimento: temor e euforia, sufoco, brisa mansa. Sempre todos à espreita dele grande ao centro, o farol. E o mar lá, espelho ondulado e negror sonoro. Eu disse palavras inaudíveis e meu olho não viu. Minha boca cega e meu olho na busca dos signos. Entre as frases que aqui estão há muito mais: há tudo aquilo do lado outro da luz do farol: há a imensidão profunda do negro mar cantante.

(a.l.k.)

24 de jan. de 2008

Ciclo ou o eclipse doloroso

Sempre pelo mesmo ponto. E a cada vez tonto. Errado. Precitado. Qual a fuga que há? Recorrentes vezes há aquilo que se configura, se instaura, é um mal jeito de saber ser. De saber agir. De não saber. De nada. O sentimento este, assim potencializado alaga tudo. Sufoca. Flutuante e belo. Impulsos. Idiotia. Não sei bem... o que? Algum deles. Todos. Ou outro pior. Ou só descontentamento e erro e descontentamento, e o nunca-mais-há-de-ser e aquilo que flameja verde, mas logo se evapora. Sentir-se assim toscamente frágil e tosco. Marionete. Sem sangue. Pálido. Sem fogo. Mas ardências. Sombrio. Sempre uma nota abaixo e um tom menor. Mas o olhar do fundo lançado adiante ao alto acompanha a última partícula verde da nuvem já quase rarefeita. Ele basta a ele. O ponto a sumir basta. No entretanto, embora o coração volte a encharcar o corpo de viscoso vermelho, e do alento quente venha a força pra caminhar, resta a certeza de que o ponto voltará. Implodir o círculo. Mostrar o sol. Eis o trabalho!

(a.l.k.)
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